No Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAP+, celebrar o orgulho também é defender o direito de ser acolhido

Em momentos de vulnerabilidade, o acesso à solidariedade deveria depender apenas da necessidade. Neste domingo (28), Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAP+, a Ser Ponte reforça que celebrar a diversidade é entender que nenhuma pessoa deve deixar de ser acolhida por causa de quem ama ou da forma como constitui sua família.

Esse compromisso se tornou fundamental já na fundação da Ser Ponte, no início da pandemia de Covid-19, em 2020. À época, muitas famílias buscavam ajuda para enfrentar a insegurança alimentar. Uma delas, um casal de mulheres da comunidade Aldaci Barbosa, localizado no bairro de Fátima, infelizmente, enfrentou dificuldades que iam além da pobreza.

Essa família enfrentou, durante a pandemia, uma situação de extrema vulnerabilidade social, desemprego e incerteza. E, apesar de algumas iniciativas doarem ajudas, como cestas básicas, na comunidade onde elas moravam, essas contribuições não foram destinadas a elas por preconceito.

A ex-agente territorial Ercilia Maia – e hoje sócia da Ser Ponte – foi quem acompanhou a situação e conta a história que essas mulheres e seus dois filhos enfrentaram:

“Quando a gente foi fazer um cadastro das famílias mais vulneráveis naquele momento de pandemia, a gente identificou esse casal, uma família formada por duas mulheres e seus dois filhos. Colocamos elas na lista com as outras famílias para receber o benefício. Em uma das conversas, elas nos informaram que a única ajuda que elas estavam recebendo era a da Ser Ponte, porque estavam vindo muitas cestas básicas das igrejas, tanto católicas como evangélicas, mas não chegavam até elas, porque elas não eram uma família, segundo essas instituições. Isso, na época, me chocou muito.”

A situação chocou Ercilia e evidenciou que preconceitos se manifestam até mesmo no acesso ao cuidado. Quando a solidariedade passa a depender de um modelo específico de família, ela deixa de alcançar justamente quem mais precisa.

A realidade vivida por esse casal dialoga com o perfil das famílias acompanhadas pela Ser Ponte, que já não se enquadram no dito modelo de família “tradicional”. Elas são mães solo, formando as chamadas famílias monoparentais.

E esse cenário está longe de representar uma exceção. Segundo o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 7,8 milhões de mulheres criam os filhos sozinhas atualmente no país. As mães solo representam 13,5% das famílias brasileiras. Já os casais homoafetivos representam 480 mil domicílios, sendo 58% deles constituídos por mulheres.

Mesmo com os avanços e conquistas de direitos, o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAP + ainda se mostra como uma data de luta. O preconceito ainda impede que a dignidade humana seja respeitada integralmente, e o direito de exercer todas as formas de existir, amar e constituir família ainda não é garantido de forma plena.

Assim como o + da sigla LGBTQIAP representa as demais denominações afetivas, a Ser Ponte acredita que toda a diversidade, seja ela por orientação sexual, raça ou outra, que integra as vulnerabilidades deve ser apoiada e respeitada. A insegurança alimentar não distingue a orientação sexual das pessoas; a solidariedade também não deveria.

Para Ercilia, ao acolher mulheres que antes haviam sido excluídas por preconceito, a Ser Ponte reforçou um grande diferencial, além do repasse de renda: “Ainda tem gente passando fome, e trabalhar com o dinheiro e sem a burocracia de algumas instituições é o grande diferencial da Ser Ponte.”