Não, as coisas não vão nada bem com as mães

Por Aline Gomes Holanda CRP 11/03243
Coletivo de Psicólogas da Ser Ponte

O dia das mães se aproxima e com ele vemos as manifestações de afeto, junto à exaltação da necessidade de agradecer e reconhecer o amor perfeito da mãe para com suas crias. A flor, o coração e a santidade aparecem em mensagens nas redes sociais como metáforas perfeitas do que é ser mãe. Todo segundo domingo de maio, parece que sim, tudo vai muito bem com as mães.

E sim, a maternidade é um grandioso fenômeno que cruza a existência de cada pessoa: todas nós nascemos de alguém. A maternidade é tão grandiosa que, o modo como subjetivamos a mãe que temos, tivemos e/ou queríamos ter e o modo como quem é mãe subjetiva a mãe que é, que não é ou que deveria ser, têm sido objeto de estudo da Psicologia desde seu nascimento.

É por isso que, em Psicologia, é importante questionarmos as molduras da santidade, da perfeição e da ternura como verdadeiras essências maternas. A própria ideia de natureza materna é problemática: não pode haver um só modo de ser mãe ou de ter mãe. Dentro de metáforas tão rígidas não há espaço para criação e reinvenção da maternidade. Por isso que escutamos aqui e ali queixas do quanto maternar é exaustivo: mas é porque quando submetidas a molduras tão engessadas, mães não têm mesmo espaço ou condições para subjetivar com liberdade sua forma de maternar.

E é daqui que se desdobra o ponto mais preocupante para nós, Coletivo de Psicólogas da Ser Ponte: enquanto sociedade, não damos condições de saúde, tampouco espaço seguro ou tempo para que mães pretas, pobres e trabalhadoras tenham apoio e recursos para recriar e subjetivar formas de existir no mundo com liberdade, apoio e segurança. Ser mãe é exaustivo, mas é um trabalho bem mais duro num sistema que só aceita suas crias na condição de humilhadas, inseguras e presas, num sistema em que seu lugar é à margem dos espaços de educação, cultura, natureza e lazer.

Mães precisam do apoio que nossa sociedade tem sistematicamente fracassado em oferecer. O único caminho alternativo é o do questionamento incansável, da luta pela dignidade social e pela renda mínima universal. Enquanto não houver justiça social, não: as coisas não vão nada bem com as mães.