Em 2024, o Ceará foi o 6° estado com a maior proporção de mulheres chefiando lares. Elas são responsáveis por aproximadamente 56% dos mais de 3,2 milhões de domicílios cearenses
Quantas pontes são necessárias para fazer de Fortaleza um lugar melhor de se viver? Essa é uma das perguntas que permeia a Ser Ponte, e para nós, enquanto Organização Sem Fins Lucrativos, não há números exatos, ou melhor, uma estatística que aponte essa resposta.
Talvez seja esse o ponto, as pessoas mais vulneráveis não se resumem a um número a ser alterado ou não. São histórias a serem contadas, reconhecidas e legitimadas.
Na cidade de Fortaleza, capital cearense, em que 53,6% da sua população é formada por mulheres, todas as lutas por dignidade são atravessadas pelo gênero.
No Ceará, mais da metade dos lares são chefiados por mulheres, e são esses os lares mais vulneráveis socialmente; entre os 20% de lares mais pobres, 61,4% são de domicílios liderados por mulheres[1].
A liderança feminina é também maioria nacionalmente. Em 2024, o Ceará foi o 6° estado com a maior proporção de mulheres chefiando lares, um total de 55,9%. Os outros cinco eram todos do Nordeste. Elas são responsáveis por aproximadamente 56% dos mais de 3,2 milhões de domicílios do nosso Estado[2].
E os números se tornam mensuráveis quando ouvimos as histórias dessas mulheres. Aluguel, educação dos filhos, tudo isso se torna mais difícil por não poder trabalhar fora, como destaca uma das mulheres apoiadas pela Ser Ponte, já que uma das muitas responsabilidades dela é levar e buscar o filho na escola. É preciso se dividir em mil.
“Eu sou mãe solo, chefe de família, confesso que não é nada fácil porque toda responsabilidade é só minha. Às vezes sinto vontade de desistir, mas não posso porque meus filhos dependem de mim, eu preciso ter força para dar conta de tudo”, afirma.
“Às vezes eu me olho no espelho e não sei como estou dando conta de tudo sozinha, é difícil você não ter com quem dividir, é difícil você não poder pedir ajuda, então o meu único pensamento é que preciso ser forte”, complementa a participante da Ser Ponte.
Acordar cedo, cuidar dos filhos, da casa, carregar um mundo consigo. Esse é o dia a dia de milhões de mulheres como ela, que cuidam.
Mas quantas delas estão sendo cuidadas?
Em todo o mundo, mulheres dedicam, em média, 3,2 vezes mais tempo do que os homens com trabalhos não remunerados de cuidado, cerca de 4 horas e 25 minutos por dia.
Tantas horas dedicadas a formas de trabalho não remuneradas é também reflexo de uma realidade nacional em que menos de 3% do PIB é destinado em políticas de cuidado, como a educação pré-escolar, que não chega nem a 1%. [3].
Essa forma de trabalho, imperceptível, muitas vezes, dificulta o acesso ao mercado formal de trabalho e à educação, básica ou superior, impactando diretamente também em uma futura aposentadoria e contribuindo para o cansaço físico e mental dessas mulheres.
Para a psicóloga do Coletivo Psi da Ser Ponte, Aline Holanda, o trabalho de cuidado não é lido como um gerador econômico ou como uma função essencial de manutenção das próprias estruturas sociais.
“O trabalho de cuidar é excluído de indicadores econômicos e de geração de riqueza, ficando de fora, por exemplo, da conta do PIB. Há estudos que apontam a necessidade de revisão dessa conta que não fecha, pois sem essa mão de obra, a economia sequer funcionária.”
Caso houvesse investimentos globais em cuidados, haveria um crescimento de 300 milhões de empregos até 2035.[4]
Ao redor do mundo, meninas e mulheres dedicam, juntas, 12,5 bilhões de horas, todos os dias, ao trabalho de cuidado não remunerado. Uma contribuição de pelo menos US$ 10,8 trilhões por ano à economia global, o que é o triplo do valor da indústria de tecnologia.[5] Rotina cansativa e invisível, é o que outra das mulheres participantes da Ser Ponte conta, a saúde mental e a ausência de uma rede de cuidado são alguns dos desafios.
“Ser dona de casa com quatro filhos é carregar um peso que quase ninguém enxerga. A rotina é cansativa. Cuidar da casa e, quando dá para sair, vou reciclar para dar o que comer para eles. Como não tenho com quem deixar meus filhos, levo comigo, mas agora, com tanta violência, fica mais difícil. Deus me dá força para atender cada um dos meus filhos, resolver tudo sozinha, e no meio disso eu vou me perdendo, ficando exausta, sem tempo para mim mesma. Isso machuca a minha saúde mental”, diz.
“Eu tento ser forte, mas sinto a mente pesada, o corpo cansado e o coração cheio de responsabilidades. Mesmo assim, eu sigo, porque amo meus filhos e sei que eles precisam de mim. Mas por dentro também preciso de cuidado, descanso e alguém que enxergue o quanto eu luto todos os dias, e é muito complicado ser dona de casa e ter que trabalhar em algum serviço de faxina, as diárias são pequenas, não dá para sustentar muito eles, mas luto todos os dias porque meu foco é cuidar deles e fazer eles felizes”, completa.
No Brasil, ser mulher acrescenta, em média, 10 horas semanais no trabalho doméstico e de cuidado não remunerado em comparação aos homens. As mulheres dedicam cerca de 21h36min nesse tipo de ocupação, quase o dobro do tempo dos homens. O tempo é ainda maior entre mulheres mais pobres.
O trabalho de cuidado também atravessa classe e raça. [6] Apenas no ano de 2022, 89,5% das mulheres realizaram mais de uma forma de trabalho no Ceará. Um total de 20% acima dos homens.[7]
Dados referentes a Fortaleza destacam que os perfis de pessoas cuidadoras são ocupados por 94,88% das mulheres e 6,12% são homens. Dessas, 86,46% são mulheres negras e 54,13% dessas mulheres assumem sozinhas esse trabalho.
A maioria não exerce nenhuma atividade profissional remunerada, não recebe nenhuma remuneração pelo trabalho de cuidado, ou continua trabalhando, mesmo doente. [8]. Aline Holanda reforça que é mais do que necessário, hoje, questionar narrativas e revelar a construção social do papel da mulher.
“Não, o papel do cuidado não é inerente à natureza feminina. Não, a mãe, a irmã, a tia e a avó não nasceram com um propósito para o cuidado. Esse papel deve ser compartilhado por toda a coletividade e, quando exercido, deve ser devidamente remunerado. Nós, enquanto coletivo Ser Ponte Psi, reconhecemos a importância de desmontar essa lógica perversa pela via da emancipação, seja através da defesa da justiça social, da renda básica, seja com ações de proteção da saúde mental de mulheres”, reitera a psicóloga.
Fortaleza é o maior PIB do Nordeste, porém, ainda é a 3ª capital mais desigual do Nordeste[9]. E em território cearense, ainda se tem mais de 3 milhões de pessoas convivendo com algum dos três níveis de insegurança alimentar[2]. Essa insegurança alimentar também tem gênero e cor.
Mas, para além dos desafios que a Ser Ponte busca transformar, como a violência, as desigualdades e a misoginia, há algo que sempre se evidencia quando se olha para Fortaleza: as mulheres.
São elas que criam e fazem a engrenagem rodar, mas ainda são as mesmas que buscam ser valorizadas e, minimamente, cuidadas. São as mulheres que criam filhos de pais ausentes e que choram diariamente a dor de perder seus filhos na capital, a quinta mais violenta do país [10].
Para quem forma a Ser Ponte, o repasse de renda solidária para mulheres chefes de família é, sobretudo, uma forma de buscar devolver dignidade para aquelas que atravessam todos os dias a cidade e a fazem pulsar. Aquelas que mais parecem várias em uma só.
Referências:
- Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece)
- Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2024.
- Levantamento da Revista Fapesp, com base nos dados da OIT
- ONU Mulheres, 2024
- OXFAM Brasil, 2025
- Trabalho Doméstico e de cuidados não remunerados (ipea, 2023)
- IPECE com base no IBGE, PNAD Contínua.
- Secretaria Estadual do Trabalho do Ceará, Universidade Federal do Ceará
- Mapa da Desigualdade das Capitais Brasileiras
- Atlas da Violência

