Sabemos que somos pequenas, sabemos também que incidir na grande estrutura por direitos, por reconhecimento, redistribuição e reparação é o caminho. Enquanto não chegamos nesse momento, seguimos perguntando — e fazendo — o que é possível para o agora? – Equipe Ser Ponte.
Por Alessandra Silva Xavier:
O que é possível fazer diante do desamparo, diante da precarização da vida? O que é possível fazer quando existe a necessidade de que empatia, delicadeza, solidariedade se transformem em materialidade que proteja financeiramente famílias que buscam visibilidade e pertença nos cuidados de uma cidade ainda tão desigual?
As mulheres que sustentam tanto, com seus corpos, com sua esperança, precisam também ser sustentadas em afeto, em colo. Construir redes de solidariedade é entrelaçar uma cidade, é aproximar as diferenças, é fazer-se ouvir, é fazer falar, é permitir ser gente em um ambiente que muitas vezes prega a inexistência ou o apagamento.
Gênero, raça, classe social se entrelaçam em pontes que trilham o caminho por onde o cuidado atravessa, e encontram mãos solidárias, que embora desconhecidas se irmanam em um projeto de humanidade. Cuidar de quem foi vulnerabilizada não é benevolência, é reparação histórica, justiça social.
Serviluz, Raízes da Praia, Barroso, São Miguel, Sabiaguaba e Caça e Pesca tornam-se expressões do poder protetivo da esperança quando encarnadas em políticas públicas, garantia de renda básica, cuidados em saúde, articulação de uma rede que protege, acolhe, empodera, acalanta.
O cuidado diz a um ser humano que sua vida é digna, e que para isso todos os outros seres humanos se importarão e se unirão para enxergar suas demandas e embalar seus sonhos. Só é possível cuidar de alguém se aquela vida tem valor, e só é possível dar valor a uma vida que é vista como igual.
Assim, constroem-se vínculos, pertença, esperança, capacidade de criar e experimentar cidadania na carne. Mas quem irá olhar para os invisíveis? Quem dedicará seu tempo? Quantas mãos serão necessárias para abraçar o excluído, o que está à margem?
Quando voluntariado se une à ideia de justiça social, quando muitos saberes se colocam a serviço da sabedoria, quando o tempo não se oferece à produtividade, quando o trabalho não é para gerar acumulação; mulheres, crianças, lideranças comunitárias são abraçadas pela cidade, em uma rede que pesca vida e amor.
É Servir Luz, é fortalecer as Raízes da Praia, na conexão natureza e cultura, no fortalecimento de que ambiente envolve história, afeto, ancestralidades, que na sabedoria do mar é possível Caça de utopias e Pesca de subjetividades reinventadas; que o São Miguel pode nos defender da nossa própria maldade e violência, do egoísmo e arrogância excludente, quando praticamos a gentileza e entendemos que cada um são todos.
É saber que do início, do barro, do Barroso pode nascer trabalho, diversidade, delicadezas, arte e poesia. É saber que na Sabiaguaba a preservação e proteção é para o território, mas também para os corpos mais antigos e mais novos que ali habitam.
Quando mulheres são vistas, protegidas, legitimadas, cuidadas, quando o território é solo fértil de afetos e força coletiva, a comunidade pode se reconhecer pertencente a um projeto de cidadania e filiação humanitária.
Quando uma mulher encontra, no fortalecimento coletivo, coragem para existir e exigir, sua fala não é mais única, é o testemunho de uma resistência, de uma potência, de uma trajetória de uma cidade e suas contradições que pode ser capaz de parir esperança e sonho.
Ao longo desses 5 anos, o Projeto Ser Ponte construiu caminhos que pavimentam a trilha do cuidado entre pessoas que se encontram, territórios que se reconhecem, narrativas de uma cidade que passa a se dizer, reconhecer.
São ações que passam a legitimar o existir em outros lugares do que se reconhece da cidade, que permite a uma cidade olhar para suas mil faces, que permite às mães, a partir da satisfação do básico, voltar a ter esperança no desejo do imenso.
A cada ano, uma ponte se amplia, e por ela passam mais sujeitos que podem acessar novas formas de existir. Ao conectar forças, diluem-se quem dá e quem recebe. Ao criar um modelo de gestão com comunidades periféricas, redimensiona-se a noção de que o humano deve ser o maior investimento e que quando o capital pode ser direcionado para os cuidados, outras pontes se entrelaçam, conectando o sujeito ao seu próprio coração, compreendendo que o que faz pulsar a alma é o fortalecimento da vida de um semelhante, e não sua opressão.
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Alessandra Xavier é professora fundadora do curso de Psicologia da UECE; Coordenadora do Nusca – Núcleo Interdisciplinar de Estudos, Pesquisas e Intervenções sobre a Saúde da Criança e da Adolescência; Coordenadora do Eclipsi- Grupo de Estudos sobre Clínica Psicanalítica; Membro do Núcleo Cearense de Estudos sobre a Infância e Adolescência – NUCEPEC-UFC; Responsável pelo desenvolvimento e implementação de projetos em Saúde Mental no âmbito nacional em Parceria com o Unicef; Agraciada com a Comenda da Ordem do Mérito do Ministério Público do Estado do Ceará; Autora de livros e artigos sobre desenvolvimento humano, psicanálise, psicoterapia e suicídio.

