O resultado da feminagem é divulgado na semana do aniversário de Fortaleza, celebrando a cidade e suas lutas femininas
Em sua quarta edição, o Prêmio Mulher Ponte celebra mulheres que se tornaram referências comunitárias na cidade de Fortaleza, atuando nos campos da justiça climática, da defesa dos direitos da população LGBTQIAPN+ e da luta por moradia digna.
Em 2026, as premiadas foram Andreia Lopes, Labelle Rainbow e Terezinha Fernandes, mulheres que constroem suas trajetórias de forma coletiva e que inspiram outras a seguirem firmes na luta por seus direitos.
Divulgada nesta quarta-feira (15), a premiação segue reafirmando seu compromisso de reconhecer histórias que transformam territórios e vidas em coletividade e reforça que Fortaleza é uma cidade construída através de lutas femininas.
ANDREIA LOPES
Entre as feminageadas está Andreia Lopes, arte educadora popular ambiental há 20 anos, articuladora comunitária, graduada em Ciências Ambientais e mestranda em Educação.

A luta dela começou no território do Autran Nunes, nas margens do rio Maranguapinho, até que um projeto de saneamento básico a fez ser realocada para o Genibaú, onde sua luta continuou seguindo a trajetória do rio.
Desde então, Andreia tem se dedicado a lutar pela preservação do Meio Ambientel, combate ao racismo ambiental, respeito aos povos originários e garantia de condições melhores de vida nos territórios periféricos urbanos. Ela também atua na Crauá Coletiva Ambiental e sonha com a expansão dos roçados comunitários já existentes na Cachoeira Dourada, comunidade do bairro Genibaú.
Ela conta que sua maior motivação para continuar lutando é: “essa inquietação de ver o meu igual morrer, na enchente, na quentura, na falta de terra ou na invasão da polícia.
A motivação é a existência da nossa vida, do direito de existir do rio, do nosso direito de não aceitarmos que vão definir preços para que a gente possa existir, para que os meus possam comer e acessar seus direitos básicos”, enfatiza.
Para ela, a feminagem ultrapassa o reconhecimento individual: “Receber esse prêmio está muito relacionado a me ver nesse lugar de outras mulheres também. Estou muito feliz com essa indicação e muito feliz também de saber que estou em lugares onde sou vista assim”.
Andreia também relata que, muitas vezes, as lutas femininas sofrem com represálias e que o reconhecimento também se manifesta como algo reconfortant.
“Ser uma mulher negra, altiva, que se posiciona, que conhece sobre o direito do seu território e que luta por ele, é algo que sofre muitas represálias, incomoda uma estrutura racista colonial. Estar sendo reconhecida com carinho é reconfortante. É tanta luta que o conforto parece privilégio, mas não deveria ser”.
LABELLE RAINBOW
Labelle Rainbow, por sua vez, atua na defesa dos direitos humanos e da população LGBTQIAPN+, transitando entre o ativismo de base e a atuação institucional. Ao longo de sua trajetória, contribuiu para a implementação e o fortalecimento de políticas públicas voltadas à população LGBTQIAPN+, sempre defendendo a importância da valorização da diversidade como base para uma sociedade mais justa.

Além da ampliação da representação na política institucional, sua trajetória foi pautada na denúncia da violência estrutural contra pessoas LGBTQIAPN+, especialmente travestis e transexuais no Brasil, e na ênfase na necessidade de manutenção e ampliação de direitos já conquistados.
“Meu ativismo começou quando percebi que as barreiras impostas a mim eram as mesmas de tantas outras. O que me motivou foi a urgência de construir pontes onde antes só existiam barreiras, transformando a indignação em ação propositiva”, relata.
Labelle também é diretora do Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB) e integra a coordenação do For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual e de Gênero, desde 2008.
Para Labelle, ser uma das feminageadas de 2026 reforça a necessidade de reconhecer as lutas coletivas: “Receber o Prêmio Mulher Ponte é, acima de tudo, um reconhecimento coletivo. Não é um prêmio para uma pessoa, mas para todas as lutas que carrego comigo. Sinceramente, a indicação foi uma surpresa emocionante; a gente trabalha pelo impacto, não pelo palco, então ser vista por uma organização que respeito tanto traz uma validação muito profunda”.
TEREZINHA FERNANDES
Teresinha Fernandes é uma mulher negra e periférica, engajada na luta por direito à moradia digna e direito à cidade. Sua trajetória nos movimentos sociais está relacionada aos impactos da remoção de comunidades para a Copa do Mundo de 2014; sua casa foi uma das muitas outras removidas nesse contexto.

Terezinha lutou incansavelmente pela permanência de sua comunidade e hoje é uma grande liderança de seu território. Ela relata como começou seu processo de engajamento na luta pelo direito à cidade:
“Eu, atrevidamente, eu me achei no direito de lutar por moradia, porque eu vi o quanto é difícil moradia nesse país e acredito que seja obrigação do governo dar moradia para quem não tem”, reforça.
Ela integra o coletivo Frente de Luta por Moradia Digna, sendo também uma das organizadoras da manifestação do Grito dos Excluídos em Fortaleza.
“Quero agradecer a Ser Ponte por ter sido premiada como mulher ponte. Para mim, foi uma surpresa muito, muito agradável. Jamais imaginei. Obrigada, Ser Ponte, pela ajuda que deram para minha comunidade e para mim”, declara.
Terezinha usa sua força para garantir que mais pessoas removidas de suas comunidades tenham uma moradia adequada para viver e inspira novas gerações de meninas e mulheres a lutarem por seus direitos.
COMISSÃO FEMINAGEM 2026
O processo de escolha das três feminageadas foi conduzido por uma comissão inteiramente formada por mulheres engajadas na defesa dos direitos das populações mais vulnerabilizadas. A psicóloga Ana Cristina Pereira de Lima, a articuladora comunitária e agente territorial da Ser Ponte, Gleiciany Queiroz, e a mobilizadora da Frente de Luta por Moradia Digna, Lúcia Pereira da Silva.
Ao todo, 12 mulheres foram indicadas à premiação, a partir de contribuições de diferentes pessoas, coletivos e movimentos sociais da cidade. As indicações evidenciaram a pluralidade, a potência e a qualidade das trajetórias apresentadas, todas marcadas pelo compromisso com as lutas comunitárias, o que tornou o processo de escolha especialmente desafiador.
A escolha foi conduzida com responsabilidade e sensibilidade pela comissão, que buscou definir três nomes capazes de representar não apenas as indicadas, mas também tantas outras mulheres que, diariamente, constroem suas lutas e resistências, mesmo sem terem sido formalmente indicadas. Como destaca Lúcia Pereira da Silva, todas as indicadas são “mulheres que lutam pelos mesmos ideais, que lutam pelo espaço que já é seu por direito e que precisa ser ocupado.”



